Promovido pela Assiferto RS, evento reuniu cerca de 250 participantes em Bento Gonçalves para discutir uma produção agrícola mais sustentável
Bento Gonçalves foi palco de um encontro dedicado aos caminhos da agricultura sustentável e às transformações que irão moldar o futuro do agronegócio nesta quinta-feira (6). Promovido pela Associação das Indústrias de Fertilizantes Orgânicos do Rio Grande do Sul (Assiferto RS), o I Simpósio de Insumos Agrícolas com Base Orgânica reuniu cerca de 250 participantes, entre representantes do poder público, entidades, pesquisadores, empresas e produtores para debater inovação, economia circular, legislação e sustentabilidade no setor.
Com programação voltada aos desafios e às oportunidades de uma agricultura mais sustentável, o evento reforçou o papel estratégico desse segmento para uma produção mais eficiente, responsável e alinhada às demandas ambientais e econômicas da agricultura brasileira.
A agenda iniciou em tom de reconhecimento aos precursores da agricultura sustentável, resgatando a trajetória do ambientalista José Lutzenberger, cujo centenário foi lembrado pela entidade como símbolo de um legado que permanece atual. Para tal, o primeiro presidente da Assiferto RS, Ito José Lanius, conduziu a homenagem e destacou a missão da associação na promoção de práticas que contribuam para a transformação do agronegócio. “Entregar essa homenagem é um reconhecimento, um sinal de que nossa missão está dando certo e de que nossas empresas irão deixar fortes legados”, afirmou.
A solenidade de abertura reforçou a relevância do tema no panorama macro. O deputado estadual Guilherme Pasin enfatizou que desenvolvimento e responsabilidade ambiental precisam caminhar juntos. “A nossa geração tem o compromisso de manter os processos de desenvolvimento com a responsabilidade de legar às próximas gerações condições ambientais melhores do que as que recebemos”, afirmou. O prefeito de Bento Gonçalves, Amarildo Lucatelli, reforçou a importância do encontro para a cidade. “Sentimo-nos orgulhosos e parceiros, pois grandes eventos como este engrandecem o nosso município”, disse.
Celebrando o sucesso da estreia do Simpósio, o presidente da Assiferto, Valdecir Ferrari, ressaltou a adesão do público e já as perspectivas de realização de uma segunda edição do Simpósio, prevista para agosto de 2028. “Bento Gonçalves é uma cidade que sabe receber e já temos práticas sustentáveis entre os vitivinicultores, o que nos impulsiona a idealizar uma nova edição tendo-a como palco mais uma vez”, adiantou.
Especialistas destacaram caminhos para conciliar produtividade e preservação ambiental
A programação técnica foi aberta pelo presidente da Assiferto RS, Valdecir Ferri, que apresentou tecnologias utilizadas pelas empresas associadas, como pirólise, hidrocarbonização e hidrólise termobárica, além de abordar os desafios relacionados à legislação ambiental e ao novo marco dos bioinsumos. Ao falar sobre a atuação da entidade, resumiu: “Somos bem biodiversos. Apesar de termos 12 associados, temos que provocar, porque no resto do país, as entidades dessa natureza são maiores. Mas nós temos dimensão e paixão pelo nosso objetivo, por uma agricultura sustentável. Quem quiser fazer parte da Assiferto precisa dividir essa vocação”, acrescentou.
Na sequência, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), Clorialdo Roberto Levrero, abordou o crescimento do setor e a evolução do ambiente regulatório. “O grande desafio foi trazer a regulamentação. A Abisolo nasceu para trabalhar toda a legislação e regulamentação do nosso setor com segurança”. Munido de dados, chamou atenção para o potencial dos insumos orgânicos no país. “Somos uma potência agrícola, mas importamos cerca de 85% dos insumos que utilizamos”, pontuou.
Na palestra sobre políticas públicas ambientais, o presidente da Fepam, Renato Chagas, destacou o potencial econômico do segmento. “O Rio Grande do Sul tem uma quantidade enorme de resíduo orgânico que não é transformado em adubo. É uma atividade que não tenho dúvida de que vai crescer, porque agrega valor”, afirmou. Dando sequência à fala de representantes do governo do estado, a procuradora de Justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Ana Maria Marchesan, abordou os avanços da legislação sobre bioinsumos e os desafios para garantir segurança ambiental ao setor. “O planeta está saturado de resíduos e a gente não tem ‘Planeta B’ para colocar todo esse material; portanto, a economia circular é uma emergência, assim como a questão climática”, afirmou.
Legislação e pesquisa em prol da agricultura sustentável
A modernização dos processos de fiscalização e a construção de uma relação mais integrada entre setor produtivo e poder público estiveram entre os temas abordados pelo auditor fiscal do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Henrique Bley. Durante sua palestra, apresentou os avanços da Lei 14.515/2022, conhecida como Lei do Autocontrole, e os impactos da nova regulamentação para a cadeia de fertilizantes. “Muitas vezes as normas não acompanham a tecnologia, mas elas também não podem ser construídas sem fundamentos científicos. Estamos sempre entre ciência, mercado, regulação e interesse público”, ressaltou
A busca por maior autonomia na produção de fertilizantes e o papel da inovação para reduzir a dependência brasileira de insumos importados também estiveram em destaque durante o simpósio na voz do pesquisador da Embrapa, Fabiano Daniel de Bona, que apresentou um panorama sobre os desafios do setor e destacou as estratégias previstas pelo Plano Nacional de Fertilizantes. “Este não é um programa de governo, é um programa de Brasil. Todos os governos que vierem têm esse compromisso de tentar seguir esse plano, porque precisamos reduzir essa dependência de fornecedores internacionais”, constatou.
Avançando na programação, a influência do uso de insumos de base orgânica na fisiologia vegetal foi abordada pelo pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Átila Francisco Mógor. O palestrante apontou como o entendimento dos processos naturais das plantas pode contribuir para o desenvolvimento de tecnologias capazes de aumentar a produtividade de forma sustentável. “As substâncias húmicas promovem maior eficiência no uso de fertilizantes, potencializando processos naturais da planta e favorecendo a absorção de nutrientes”, destacou.
Encerrando a programação técnica, o extensionista rural da Emater, Marcelo Biasussi, abordou a importância da matéria orgânica e das práticas conservacionistas para a recuperação da qualidade dos solos e o fortalecimento da agricultura frente às mudanças climáticas. Ao apresentar experiências desenvolvidas com produtores rurais, o palestrante destacou que sistemas mais diversos e o uso de insumos de base orgânica contribuem para aumentar a resiliência das propriedades. “O que nós queremos é a resiliência, principalmente numa época de mudanças climáticas. Quanto mais interações nós tivermos, mais resiliente será o nosso sistema”, afirmou.
O I Simpósio de Insumos Agrícolas de Base Orgânica encerrou com uma mesa redonda onde os palestrantes puderam responder perguntas selecionadas da audiência.






